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TDAH aumenta o risco de demência? O que uma nova pesquisa realmente mostra

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) costuma ser associado à infância, à dificuldade de concentração e à impulsividade. Mas seus efeitos podem acompanhar uma pessoa durante toda a vida, inclusive na velhice.

Uma questão que vem despertando interesse dos pesquisadores é se pessoas com TDAH apresentam maior risco de desenvolver problemas cognitivos com o envelhecimento, incluindo demência.

Em 7 de outubro de 2026, um estudo publicado no JAMA Psychiatry trouxe novos dados para essa discussão. A pesquisa acompanhou informações de mais de 187 mil adultos e encontrou uma associação entre TDAH e maior ocorrência de comprometimento cognitivo.

O resultado merece atenção. Mas também exige uma distinção importante: encontrar um risco aumentado não significa demonstrar que o TDAH causa demência.

O que os pesquisadores investigaram?

O estudo, conduzido por Bauer-Negrini e colaboradores, utilizou informações do All of Us Research Program, uma grande iniciativa de pesquisa dos Estados Unidos.

Foram analisados dados de 187.341 participantes com 50 anos ou mais, incluindo registros médicos e informações genéticas. O acompanhamento médio disponível foi de aproximadamente dez anos.

Os pesquisadores investigaram duas questões principais:

  • Se pessoas com diagnóstico registrado de TDAH apresentavam maior ocorrência posterior de comprometimento cognitivo leve ou demência.
  • Se uma maior predisposição genética ao TDAH também estava associada a esses desfechos.

Esse segundo aspecto torna o trabalho particularmente interessante. Além de considerar diagnósticos documentados nos prontuários, os autores avaliaram um escore de risco poligênico: uma medida estatística que reúne diversas variantes genéticas relacionadas à predisposição ao TDAH.

A intenção era verificar se diferentes formas de identificar características associadas ao transtorno apontariam para resultados semelhantes.

Comprometimento cognitivo leve e demência são a mesma coisa?

Antes de interpretar os resultados, é importante esclarecer essa diferença.

O comprometimento cognitivo leve envolve alterações mensuráveis em funções como memória, atenção ou outras capacidades cognitivas, sem o grau de prejuízo funcional característico de uma demência.

Já a demência, também chamada de transtorno neurocognitivo maior, envolve declínio cognitivo suficientemente importante para comprometer a independência nas atividades cotidianas.

Nem todas as pessoas com comprometimento cognitivo leve desenvolvem demência. Algumas permanecem estáveis e outras podem apresentar melhora, dependendo das causas envolvidas.

No estudo, os pesquisadores reuniram os dois diagnósticos em um desfecho combinado. Isso significa que os resultados não devem ser interpretados como se todos os participantes identificados tivessem desenvolvido demência.

Essa distinção é essencial para compreender a dimensão real dos achados.

O que o estudo encontrou?

Entre os participantes, 3.026 tinham diagnóstico registrado de TDAH.

Durante o acompanhamento:

  • 6,7% das pessoas com TDAH receberam diagnóstico de comprometimento cognitivo leve ou demência.
  • 3,4% das pessoas sem TDAH receberam um desses diagnósticos.

Em outras palavras, a ocorrência registrada foi aproximadamente duas vezes maior no grupo com TDAH.

Os pesquisadores também utilizaram modelos estatísticos para analisar o tempo até o diagnóstico e considerar diferenças entre os participantes.

Em um dos modelos ajustados, o TDAH esteve associado a uma taxa instantânea de ocorrência do desfecho aproximadamente 4,6 vezes maior. Após ajustes adicionais para condições neuropsiquiátricas associadas, essa estimativa diminuiu para aproximadamente 3,2 vezes.

Esses números precisam ser interpretados com cuidado. Eles representam medidas estatísticas de associação, chamadas hazard ratios, e não significam que uma pessoa com TDAH tenha quatro vezes mais probabilidade individual de desenvolver demência.

Além disso, os resultados do grupo não permitem prever o que acontecerá com uma pessoa específica.

E o que a análise genética acrescentou?

Os pesquisadores também observaram que participantes com maior escore de predisposição genética ao TDAH apresentavam maior ocorrência de comprometimento cognitivo.

Na comparação entre os grupos com os escores mais altos e mais baixos, a razão de riscos instantâneos foi de aproximadamente 1,35.

Esse resultado acrescenta uma informação relevante porque a análise genética não depende exclusivamente da existência de um diagnóstico de TDAH no prontuário.

Entretanto, um escore poligênico não é um diagnóstico, não determina o destino de uma pessoa e não comprova que o TDAH seja responsável pelo desenvolvimento de alterações cognitivas.

Isso significa que o TDAH causa demência?

Não. O estudo demonstra uma associação, mas não estabelece uma relação de causa e efeito.

Existem diferentes explicações possíveis para essa relação, e elas não são necessariamente excludentes.

Pessoas com TDAH podem apresentar, ao longo da vida, outras condições que também influenciam a saúde cognitiva, como transtornos do humor, problemas de sono e determinadas condições clínicas.

É possível que fatores compartilhados contribuam para os dois fenômenos. Também permanecem questões sobre mecanismos neurobiológicos, predisposição genética e influências ambientais.

Outro aspecto importante é a possibilidade de causalidade reversa.

Algumas doenças neurodegenerativas começam a produzir alterações cognitivas muitos anos antes do diagnóstico de demência. Nesse período, dificuldades de atenção, organização e memória podem ser interpretadas como manifestações de outros transtornos.

Assim, em determinados casos, sintomas relacionados a um processo neurodegenerativo ainda não reconhecido podem contribuir para um diagnóstico tardio de TDAH.

Os próprios pesquisadores investigaram essa possibilidade. Quando exigiram intervalos cada vez maiores entre o diagnóstico de TDAH e o aparecimento do comprometimento cognitivo, a força da associação diminuiu.

Esse resultado não elimina a possibilidade de uma relação verdadeira, mas reforça a necessidade de cautela.

TDAH e demência podem apresentar sintomas semelhantes?

Sim, embora sejam condições muito diferentes.

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento. Suas manifestações geralmente começam na infância, mesmo quando o diagnóstico só acontece na vida adulta.

Dificuldades de organização, planejamento, memória operacional e manutenção da atenção podem persistir por muitos anos.

Na demência, por outro lado, ocorre um declínio adquirido em relação ao funcionamento cognitivo anterior.

Essa diferença entre uma dificuldade presente ao longo da vida e uma perda progressiva de capacidades é fundamental para o raciocínio diagnóstico.

Por exemplo, esquecer compromissos ou perder objetos não tem o mesmo significado clínico em alguém que apresenta essas dificuldades desde a juventude e em uma pessoa que começa a manifestá-las após décadas de funcionamento diferente.

Também é importante considerar outras causas possíveis de alterações cognitivas, incluindo depressão, ansiedade, distúrbios do sono, condições clínicas e efeitos de medicamentos.

Por isso, avaliar cognição não significa apenas identificar sintomas em um determinado momento. É necessário compreender a trajetória da pessoa e investigar mudanças em relação ao seu funcionamento habitual.

O tratamento do TDAH poderia reduzir esse risco?

Essa é uma das perguntas mais importantes levantadas por pesquisas dessa natureza, mas o novo estudo não permite respondê-la.

Os pesquisadores não tinham informações suficientes sobre o histórico de tratamento dos participantes para determinar se intervenções para TDAH modificaram o risco de comprometimento cognitivo.

Outros estudos já exploraram essa hipótese, mas ainda não existem evidências suficientes para afirmar que tratar o TDAH previne demência.

Da mesma forma, os resultados não justificam modificar, iniciar ou suspender medicamentos com o objetivo específico de prevenir uma doença neurodegenerativa.

O tratamento do TDAH deve continuar sendo individualizado, considerando sintomas, prejuízos funcionais, condições associadas, benefícios e riscos.

Quais são as limitações da pesquisa?

Apesar da grande quantidade de participantes e da inclusão de dados genéticos, o estudo apresenta limitações importantes.

A primeira é seu caráter observacional. Os pesquisadores identificaram relações entre características e desfechos, mas não realizaram um experimento capaz de demonstrar causalidade.

Outra limitação é a utilização de diagnósticos registrados em prontuários eletrônicos.

O reconhecimento do TDAH em adultos mais velhos ainda representa um desafio. Algumas pessoas podem ter convivido com sintomas durante décadas sem receber diagnóstico, enquanto outras podem ter sido diagnosticadas tardiamente em circunstâncias clínicas complexas.

Também é possível que pessoas acompanhadas com maior frequência pelos serviços de saúde tenham mais oportunidades de receber diagnósticos de alterações cognitivas.

Os autores realizaram análises para reduzir a influência de algumas dessas diferenças, mas não é possível excluir todos os fatores que poderiam interferir nos resultados.

Além disso, o estudo avaliou comprometimento cognitivo leve e demência em conjunto. Ele não permite concluir que exista a mesma associação com todos os tipos de demência, nem esclarecer quais mecanismos estariam envolvidos.

O que essa descoberta muda na prática clínica?

O estudo reforça uma questão que vem ganhando espaço na psiquiatria: o TDAH não deve ser considerado apenas sob a perspectiva da infância ou do início da vida adulta.

À medida que pessoas com TDAH envelhecem, torna-se importante compreender melhor como suas características cognitivas interagem com mudanças relacionadas à idade e com outras condições clínicas.

Isso não significa que todas as pessoas com TDAH desenvolverão demência, nem que precisem realizar exames indiscriminadamente por causa dessa pesquisa.

O que os resultados destacam é a importância de considerar o funcionamento cognitivo ao longo do tempo.

Mudanças progressivas de memória, atenção, linguagem, organização ou autonomia merecem investigação clínica, especialmente quando representam uma alteração em relação ao funcionamento habitual.

O acompanhamento também deve considerar saúde física, sono, humor, medicamentos e outras condições capazes de influenciar a cognição.

Ainda precisamos de pesquisas que esclareçam quanto dessa associação decorre de fatores compartilhados, diferenças na identificação dos diagnósticos ou possíveis mecanismos biológicos.

O que podemos concluir?

A pesquisa publicada no JAMA Psychiatry acrescenta evidências relevantes de que o TDAH está associado a maior ocorrência de comprometimento cognitivo na vida adulta tardia.

Seu diferencial está em reunir dados clínicos e genéticos em uma população numerosa, ampliando uma linha de investigação que já vinha sendo desenvolvida.

Entretanto, os resultados não demonstram que o TDAH cause demência, não permitem prever o risco individual e não estabelecem medidas específicas de prevenção.

A principal contribuição do estudo talvez não seja oferecer uma resposta definitiva, mas ampliar as perguntas que fazemos sobre o envelhecimento das pessoas com TDAH.

Na psiquiatria, compreender uma condição ao longo da vida é tão importante quanto reconhecer seus sintomas em um momento isolado.

E, quando o assunto é saúde cognitiva, distinguir dificuldades antigas de mudanças recentes pode fazer uma diferença importante na avaliação clínica.

Referência científica

Bauer-Negrini G, Leffa DT, Ferreira PCL, et al. Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Late-Life Cognitive Impairment. JAMA Psychiatry. Publicado on-line em 7 de outubro de 2026.

JAMA Psychiatry (em inglês)

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Sobre a autora

Dra. Carolina Froehner

Médica Psiquiatra

CRM 21058 – RQE 14163-22697

Este artigo apresenta uma análise de evidências científicas e tem caráter informativo. Não substitui uma avaliação médica individualizada.